A microbiota do ser humano

Fonte: RAY, 2012.

Fonte: RAY, 2012.

A frase “nenhum homem é uma ilha”, escrita por Jonh Donne, esta certa de uma maneira muito singular, nós nunca estamos sozinhos, estamos sempre acompanhados por um número surpreendente de microrganismos que colonizam as superfícies do nosso corpo e mucosa (LOBO et al.,2016).

Apesar do ponto de vista antropocêntrico, que garante que somos organismos altamente evoluídos e autossuficientes, pesquisas com animais livres de microrganismos conta uma história diferente. Os microrganismos são fundamentais em cada etapa da nossa vida, e sem eles não seriamos capazes de sobreviver neste mundo (LOBO et al.,2016).

Recentes avanços em tecnologia de sequenciamento, deram a investigadores uma visão mais aprofundada sobre a relação simbiótica entre a microbiota intestinal e seu hospedeiro (PAREKH et al., 2015).

Uma microbiota normal engloba uma ampla variedade de microrganismos que possuem papel essencial na digestão, fermentação de substratos, manutenção do sistema imune, e na síntese de vitaminas e enzimas. Portanto, a atividade metabólica realizada pela microbiota intestinal se equivale a de um órgão (PAREKH et al., 2015).

A microbiota intestinal normal é formada principalmente por bactérias anaeróbicas, e por um baixíssimo número de bactérias aeróbias e facultativas, o total consiste em aproximadamente 500 a 1000 espécies conhecidas, sendo os dois filos mais abundantes Firmicutes e Bacterioidetes (SOMMER & BACKHED, 2013).

Ao longo do trato gastrointestinal (TGI) a distribuição microbiana aumenta em diversidade e quantidade (101 estômago, duodeno 103, 104 jejuno ,107 íleo, cólon 1012 células por grama). Cada segmento abriga uma microbiota específica. O intestino delgado proximal possui principalmente bactérias aero-acidotolerante tais como Helicobacteraceae e Lactobacillaceae, ao passo que o cólon abriga bactérias estritamente anaeróbicas, como Lachnospiraceae e Bacteroidaceae (SOMMER & BACKHED, 2016; DONNENBERG,2000; WILLING et al.,2010).

Fonte: SOMMER & BACKHED, 2016

Fonte: SOMMER & BACKHED, 2016

Apesar de já existir uma extensa literatura sobre a diversidade da microbiota associada com o nosso corpo, novas descobertas sobre sua implicação e contribuição em diversas funções fisiológicas acontecem frequentemente. Ela está intimamente envolvida em numerosos aspectos da fisiologia do hospedeiro, desde seu estado e comportamento nutricional até sua resposta ao estresse. Além disso, podem ter uma relação central ou contribuir para o desenvolvimento de doenças, tanto em órgãos próximos, quanto os mais distantes (NAGPAL et al., 2014; SEKIROV et al.,2010).

O total equilíbrio na composição da microbiota do intestino, assim como a presença ou ausência das principais espécies capazes de efetuarem respostas específicas, são importante para garantir a homeostasia na mucosa intestinal e em outras regiões do corpo. Desvios desta homeostasia podem induzir a uma alterações da microbiota, como é mostrado em uma variedade de doenças, como diabetes, obesidade e doenças inflamatórias crônicas (SOMMER & BACKHED, 2016; DONNENBERG,2000; WILLING et al.,2010; SEKIROV et al.,2010).

Adaptação de SCHROEDER & BÄCKHED, 2016

Adaptação de SCHROEDER & BÄCKHED, 2016

Portanto, depois das inúmeras descobertas sobre a influência dos microrganismos na saúde humana e consequentemente sua importância, estratégias vem sendo tomadas para modular a flora intestinal e com isso prevenir, tratar e reduzir sintomas de várias doenças relacionadas as estes microrganismos. Como exemplo, as terapias personalizadas com probióticos, que ganharam considerável interesse nos últimos anos (VIEIRA et al., 2016; VRESE & SCHREZENMEIR,2008).

probioticosOs probióticos são definidos como microrganismos vivos, que quando administrados em dose adequada conferem benefícios à saúde do hospedeiro. Os probióticos mais utilizados são as estirpes bacterianas de Bifidobacterium e Lactobacillus, no entanto outros microrganismos, tais como as leveduras Saccharomyces, também vem sendo amplamente comercializadas ( VIEIRA et al., 2016; VRESE & SCHREZENMEIR,2008).

A utilização de probióticos pode ter como alvo vários locais do corpo (boca, trato gastrointestinal, trato respiratório, trato urinário, pele, vagina, etc.) ou ainda, visar subpopulações humanas específicas: indivíduos saudáveis, crianças, idosos, doentes e imunocomprometidos. Existe uma gama extremamente diversificada de potenciais efeitos biológicos e novas atividades funcionais estão constantemente sendo exploradas. (VANDENPLAS et al.,2015).

 

Referencia

  1. Lobo LA, Benjamim CF and Oliveira AC.The interplay between microbiota and inflammation: lessons from peritonitis and sepsis. Clinical & Translational Immunology (2016) 5, e90.
  2. Nagpal R, Yadav H and Marotta F. Gut Microbiota: The Next-Gen Frontier in Preventive and Therapeutic Medicine? Front Med (Lausanne). 2014; 1: 15.
  3. Sommer F, Bäckhed F. The gut microbiota — masters of host development and physiology. Nature Reviews Microbiology 11, 227-238 (April 2013).
  4. Donnenberg MS.Pathogenic strategies of enteric bacteria. Nature. 2000 Aug 17;406(6797):768-74.
  5. Sommer F, Bäckhed F. Know your neighbor: Microbiota and host epithelial cells interact locally to control intestinal function and physiology. Bioessays. 2016 May;38(5):455-64.
  6. Willing BP, Dicksved J, Halfvarson J, Andersson AF, Lucio M, Zheng Z, Järnerot G, Tysk C, Jansson JK, Engstrand L. A pyrosequencing study in twins shows that gastrointestinal microbial profiles vary with inflammatory bowel disease phenotypes. Gastroenterology. 2010 Dec;139(6):1844-1854.e1.
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  8. Sekirov I, Russell SL, Antunes LC, Finlay BB. Gut microbiota in health and disease. Physiol Rev. 2010 Jul;90(3):859-904.
  9. Ray K. Gut microbiota: married to our gut microbiota. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2012 Oct;9(10):555.
  10. Vieira AT, Fukumori C and Ferreira CM. New insights into therapeutic strategies for gut microbiota modulation in inflammatory diseases. Clinical & Translational Immunology (2016) 5, e87.
  11. Vrese M, Schrezenmeir J. Probiotics, prebiotics, and synbiotics. Adv Biochem Eng Biotechnol. 2008;111:1-66.
  12. Hakansson A and Molin G. Gut Microbiota and Inflammation. Nutrients. 2011 Jun; 3(6): 637–68.
  13. Parekh PJ, Balart LA, Johnson DA.The Influence of the Gut Microbiome on Obesity, Metabolic Syndrome and Gastrointestinal Disease. Clin Transl Gastroenterol. 2015 Jun 18;6:e91.
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