Benefícios do SAME na Osteoartrite e Doenças hepáticas

S-adenosilmetionina (SAMe) é produzido no fígado a partir de metionina. O SAMe parece aumentar os condrócitos e a espessura da cartilagem, e pode também diminuir o dano dos condrócitos induzido por citocina. O S-adenosilmetionina tem sido utilizado no tratamento da osteoartrite, bem como outras doenças tais como a depressão e a doença hepática (WILSON; SPERRY; GREGORY, 2008).

Hardy e colaboradores (2003) realizaram uma revisão abrangente da literatura e da síntese de provas sobre a utilização de S-adenosilmetionina (SAMe) no tratamento da depressão, osteoartrite e doença hepática. Os estudos analisados indicaram que SAMe é mais eficaz do que o placebo no alívio dos sintomas da depressão e dor causada pela osteoartrite. O tratamento com SAMe foi equivalente à terapia padrão para a depressão e osteoartrite.

 

Osteoartrite

Osteoartrite do joelho é uma condição comum incapacitante que afeta mais de um terço das pessoas com mais de 65 anos. Exercício, perda de peso, fisioterapia, injeções intra-articulares de corticosteróides e o uso de drogas anti-inflamatórias não esteroidais, suportes ou cunhas de calcanhar podem diminuir a dor e melhorar a função (RINGDAHL; PANDIT, 2011).

O SAMe demonstra ter potencial para ajudar o corpo na regeneração do tecido da cartilagem, melhora as funções das articulações e reduz a experiência de dor na artrite reumatóide (KRZYSTANEK et al., 2011). Hosea Blewett (2008) aponta em estudo que ensaios clínicos mostram uma redução da dor e rigidez, enquanto os ensaios in vitro e em animais apresentam que o S-adenosilmetionina pode estimular a produção de cartilagem para reverter o processo da doença.

O SAMe tem efeitos anti-inflamatórios e analgésicos e tem sido avaliado para melhorar a dor e disfunção de osteoartrite (OA). Um estudo comparou a eficácia e tolerabilidade do SAMe 1200 mg/dia e nabumetona 1000 mg/dia em pacientes coreanos com OA do joelho (KIM et al., 2009).

Cento e trinta e quatro pacientes, todos asiáticos, foram distribuídos aleatoriamente em um dos dois grupos de tratamento: 67 pacientes (56 mulheres, 11 homens, com idade média de 63,9 anos) receberam SAMe 400 mg três vezes ao dia, e 67 pacientes (60 mulheres e 7 homens, com idade média de 62,1 anos) receberam nabumetona 1000 mg uma vez ao dia; ambos os tratamentos tiveram duração de 8 semanas. Uma análise das mudanças na intensidade da dor entre as semanas 0 e 8 apresentou que o SAMe efetivamente reduziu a intensidade da dor e o seu grau significativamente (KIM et al., 2009).

Um estudo cruzado, duplo-cego e randomizado, comparou o SAMe (1200 mg) com celecoxib (Celebrex 200 mg) por 16 semanas para reduzir a dor relacionada com osteoartrite do joelho. Sessenta e um adultos diagnosticados com OA do joelho foram inscritos e 56 completaram o estudo. Os indivíduos foram avaliados quanto à dor, a saúde funcional, o estado de humor, testes de função através de isométricas e os efeitos secundários. Com base nos resultados, concluiu-se que o SAMe possui um quadro clínico de início de ação mais lento, mas é eficaz no tratamento dos sintomas de osteoartrite do joelho (NAJIM et al., 2004).

Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados realizada por Soeken e colaborados (2002) avaliou em oito estudos a eficácia de S-adenosilmetionina em comparação com o placebo ou drogas anti-inflamatórias não-esteroidais no tratamento da OA. Quando comparado com o placebo, SAMe é mais eficaz na redução da limitação funcional em pacientes com osteoartrite. Concluiu-se que o SAMe é tão eficaz quanto as drogas anti-inflamatórias na redução da dor e melhoria da limitação funcional em pacientes com OA, sem os efeitos adversos, muitas vezes associados com terapias de anti-inflamatórios (SOEKEN et al., 2002).

Doenças hepáticas

O S-adenosilmetionina (SAMe) exerce várias funções importantes no fígado, inclusive servindo como um precursor para a cisteína, um dos três aminoácidos de glutationa – o principal mecanismo de defesa contra o estresse oxidativo fisiológico. O SAMe é especialmente importante em oposição a toxicidade dos radicais livres de oxigênio gerados por vários agentes patogênicos, incluindo o álcool, que provocam o stress oxidativo em grande medida pela indução de citocromo e pelo seu metabólito de acetaldeído (PUROHIT; RUSSO, 2002). SAMe possui uma ação hepatoprotectora e, portanto, pode reduzir o risco do desenvolvimento de neoplasias, doenças do fígado induzidas pelo álcool e cirrose (KRZYSTANEK et al., 2011).

O stress oxidante desempenha um papel chave na patogênese da doença do fígado. O SAMe é o doador de metila para reações bioquímicas de metilação e um precursor de glutationa, o antioxidante principal hepatocelular. O S-adenosilmetionina tem demonstrado atenuar a lesão hepática causada pelo álcool e outras hepatotoxinas em alguns modelos animais. O SAMe tem potencial para tratar hepatite alcoólica por atuar como um precursor antioxidante da glutationa, reparar o sistema de transporte mitocondrial de glutationa, atenuar os efeitos tóxicos das citoquinas pró-inflamatórias e pelo  aumento da metilação de DNA (PUROHIT; RUSSO, 2002).

O benefício potencial do SAMe no tratamento de doença hepática resulta de vários aspectos importantes de seu metabolismo. Nos mamíferos, até 80% da metionina no fígado, é convertido em SAMe. Glutationa hepática, a qual é dependente da metionina e do metabolismo da S-adenosilmetionina, sendo um dos principais antioxidantes envolvidas na desintoxicação hepática (BOTTIGLIERI, 2002).

Estudos experimentais e clínicos mostraram que a administração oral e parenteral de SAMe pode aumentar as concentrações de glutationa nas células vermelhas do sangue e no tecido hepático, e pode efetivamente recompor a quantidade de glutationa, em pacientes com doença hepática (BOTTIGLIERI, 2002).

Dor abdominal

Dor abdominal funcional (DAF) é um dos distúrbios gastrointestinais funcionais mais comuns em crianças. Atualmente, os médicos usam amplamente antidepressivos tricíclicos para tratar DAF. Esses antidepressivos, no entanto, têm sido associados a um maior risco de ideação suicida e os efeitos colaterais que acompanham muitas vezes limitam os benefícios. S-adenosilmetionina (SAMe) é um suplemento dietético que tem eficácia como um antidepressivo e como um tratamento para a dor crónica (CHOI; HUANG, 2013).

Diante disso, um estudo investigou a eficácia do SAMe no tratamento da dor abdominal persistente. Oito participantes receberam SAMe com uma dose inicial de 200 mg/dia, com escalonamento para uma dose máxima de 1400 mg/dia no período de 2 meses. Seis participantes completaram o estudo. O resultado demonstrou uma melhoria nos relatórios de dor durante o período de acompanhamento de 2 meses (P = 0,004).  Concluiu-se que SAMe oral apresenta-se como uma promessa na redução da dor abdominal entre crianças com DAF, com o mínimo de toxicidade (CHOI; HUANG, 2013).

Depressão

Desde 1973, estudos clínicos realizados vêm apontando os efeitos antidepressivos do SAMe . Ao longo das duas últimas décadas seguintes, a eficácia do SAMe no tratamento de distúrbios depressivos foi confirmada em mais de quarenta ensaios clínicos (BOTTIGLIERI, 2002). O SAMe é um suplemento dietético promissor, o qual pode ser utilizado com sucesso como uma substância para aumentar a eficácia do tratamento da depressão, com antidepressivos em monoterapia em estados depressivos leves ou sintomas depressivos. O S-adenosilmetionina, juntamente com drogas antipsicóticas, podem conduzir a uma melhoria da qualidade de vida e redução da agressividade dos pacientes (KRZYSTANEK et al., 2011).

O SAMe tem sido estudado há mais de 30 anos e a maioria dos estudos sobre o transtorno depressivo maior concentraram-se em tratamento agudo. Dados de segurança a longo prazo no transtorno depressivo maior são limitados. Porém, em relação à questão de risco/benefício, o S-adenosilmetionina pode ter efeitos benéficos sobre a dor associada com a osteoartrite e em algumas condições de fígado. Doses orais usuais do SAMe em transtorno depressivo maior foram entre 800 e 1600 mg por dia (NELSON, J.C., 2010).

Brown e colaboradores (2000) resumiram a literatura sobre o uso do SAMe em transtornos depressivos até o momento da publicação, em 2000; relatou-se que o composto já havia sido estudado em: 16 estudos abertos e não controlados (660 pacientes); 13 randomizados, duplo-cego e placedo-controlados (537 pacientes); e 19 ensaios controlados comparando o SAMe com outros antidepressivos (1.134 pacientes). Os efeitos antidepressivos significativos foram observados em todos os 16 ensaios abertos. Em 18 estudos controlados, o SAMe foi tão eficaz quanto a imipramina, chlorimipramine, nomifensina e minaprina. Uma observação importante a partir desses estudos é que o S-adenosilmetionina teve muito menos efeitos colaterais do que os medicamentos convencionais.

Transtorno depressivo maior (DM) é uma doença grave, altamente prevalente que tem um impacto significativo na saúde pública e funcionamento humano em todo o mundo. Embora um grande número de medicamentos antidepressivos eficazes exista, é conhecido que uma proporção significativa de pacientes com DM não atingem a resposta e/ou remissão com terapias antidepressivas padrão, mesmo que de forma otimizada. Tal condição é chamada de resistência ao tratamento (ou refratário) da depressão (RTD) e representa um grande desafio no cotidiano da prática clínica (DE BERARDIS, D. et al, 2013).

Em determinado estudo foi investigado a eficácia do aumento do SAMe em pacientes com depressão resistente ao tratamento. Trinta e três pacientes ambulatoriais com episódio depressivo que falharam em responder a pelo menos 8 semanas de tratamento, com duas doses adequadas e estáveis ​​de antidepressivos, foram tratados abertamente com uma dose fixa de SAMe (800 mg) durante 8 semanas, acrescentado a medicação existente. O parâmetro de avaliação principal foi a mudança da linha de base na pontuação total de Escala de Hamilton para Depressão (EHM-D). Em 8 semanas, uma redução significativa na pontuação EHM-D foi observada com resposta alcançada por 60% dos pacientes e  36% de remissão. Os resultados indicam que o aumento do mesmo pode ser eficaz e bem tolerado na fase II, em pacientes depressivos com resistência ao tratamento (DE BERARDIS, D. et al., 2013).

Setenta e três participantes que não responderam à terapia com inibidores da recaptação da serotonina (IRS) e diagnosticados com transtornos depressivos mais graves foram submetidos a um estudo de 6 semanas, duplo-cego, randomizado. Os pacientes receberam SAMe por via oral (dose-alvo: 800 mg/duas vezes ao dia) e continuaram a receber o seu tratamento com uma dose de IRS estável durante todo o tratamento de 6 semanas. O parâmetro de avaliação principal do estudo foi a taxa de resposta de acordo com a escala de avaliação de 17 itens da Escala de Hamilton para Depressão (EHM-D). Os resultados em relação ao EHM-D e taxas de remissão foram maiores para os pacientes tratados com SAMe (36,1% e 25,8%, respectivamente) do que o placebo (17,6% versus 11,7%, respectivamente). Estes resultados sugerem que o SAMe pode ser uma estratégia de tratamento complementar eficaz, bem tolerado e seguro para pacientes que não respondem à terapia com inibidores da recaptação da serotonina (PAPAKOSTAS, G.I. et al., 2010).

A disfunção sexual é um efeito secundário conhecido do tratamento com antidepressivos (TAD), afetando até 58-73% das pessoas que recebem TAD, potencialmente afetando a adesão ao antidepressivo. Por isso, é vital o desenvolvimento de novos tratamentos que visem à disfunção sexual induzida por antidepressivos. Um estudo randomizado, duplo-cego, investigou se o SAMe está associado a uma maior melhora no funcionamento sexual do que o placebo coadjuvante pela medição das mudanças no funcionamento sexual de medição utilizando o Questionário de Funcionamento Sexual do Hospital Geral de Massachusetts (QFS-HGM) durante a 6 semanas (DORDING et al., 2012).

Os homens tratados com SAMe demonstraram disfunção sexual significativamente menor ao final do período do que aqueles tratados com placebo. Além disso, controlado o grau de disfunção eréctil na linha de base, bem como o grau de alteração na pontuações da escala HDRS-17, os homens tratados com SAMe demonstraram uma disfunção eréctil significativamente inferior que a dos tratados com placebo. No presente estudo, observou-se que o S-adenosilmetionina pode ter um benefício positivo na estimulação masculina e disfunção erétil independente da melhoria dos sintomas depressivos (DORDING et al., 2012).

 

REFERÊNCIAS:

BOTTIGLIERI T.  S-Adenosyl-L-methionine (SAMe): from the bench to the bedside–molecular basis of a pleiotrophic molecule. Am J Clin Nutr. 2002 Nov;76(5):1151S-7S.3

BROWN, R.; GERBARG, P.; BOTTIGLIERI, T. S-Adenosylmethionine in the clinical practice of psychiatry, neurology and internal medicine. Clin Pract Intern Med 2000;1:230–41

CHOI, L.J.; HUANG, J.S. A pilot study of S-adenosylmethionine in treatment of functional abdominal pain in children. Altern Ther Health Med. 2013 Sep-Oct;19(5):61-4.

 

DE BERARDIS, D. et al. S-Adenosyl-L-Methionine augmentation in patients with stage II treatment-resistant major depressive disorder: an open label, fixed dose, single-blind study. ScientificWorldJournal. 2013 May 12;2013:204649. doi: 10.1155/2013/204649. Print 2013.

DORDING, C.M. et al. SAMe and sexual functioning. Eur Psychiatry. 2012 Aug;27(6):451-4. doi: 10.1016/j.eurpsy.2011.01.003. Epub 2011 Mar 12.

 

GREGORY, P.J.; SPERRY, M.; WILSON, A.F. Dietary supplements for osteoarthritis. Am Fam Physician. 2008 Jan 15;77(2):177-84.

HARDY, M.L. et al. S-adenosyl-L-methionine for treatment of depression, osteoarthritis, and liver disease. Evid Rep Technol Assess (Summ). 2003 Aug;(64):1-3.

HOSEA BLEWETT, H.J. Exploring the mechanisms behind S-adenosylmethionine (SAMe) in the treatment of osteoarthritis. Crit Rev Food Sci Nutr. 2008 May;48(5):458-63. doi: 10.1080/10408390701429526.

KIM, J. et al. Comparative clinical trial of S-adenosylmethionine versus nabumetone for the treatment of knee osteoarthritis: an 8-week, multicenter, randomized, double-blind, double-dummy, Phase IV study in Korean patients. Clin Ther. 2009 Dec;31(12):2860-72. doi: 10.1016/j.clinthera.2009.12.016.

KRZYSTANEK et al. [S-adenosyl L-methionine in CNS diseases]. [Article in Polish] Psychiatr Pol. 2011 Nov-Dec;45(6):923-31.

LIEBER, C.S. ALCOHOL: its metabolism and interaction with nutrients. Annu Rev Nutr. 2000;20:395-430.

 

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PUROHIT, V.; RUSSO, D. Role of S-adenosyl-L-methionine in the treatment of alcoholic liver disease: introduction and summary of the symposium. Alcohol. 2002 Jul;27(3):151-4.

RINGDAHL, E.; PANDIT, S. Treatment of knee osteoarthritis. Am Fam Physician. 2011 Jun 1;83(11):1287-92.

 

SOEKEN, K.L et al. Safety and efficacy of S-adenosylmethionine (SAMe) for osteoarthritis. J Fam Pract. 2002 May;51(5):425-30.

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